A culpa é da China!




Em meio a uma pandemia, embora alguns ainda neguem, procura-se um culpado. Tradição bastante humana, precisamos dar nome a quem causou o problema. Isso faz parte da nossa necessidade de ver, na mesma folha, no mesmo canvas, causa e consequência. Aprendemos assim! Nosso pensamento é curto e linear.


Bem, parece que a culpa é da China. Claro, a pandemia começou lá. E o prefeito de Wuhan, epicentro da catástrofe, assumiu que escondeu dados e demorou a responder ao surto de coronavírus. Segundo ele, resultado de uma burocracia específica para casos de saúde. Demorou a tomar decisões necessárias para impedir uma catástrofe, logo, é culpado. Culpado da mesma forma que a Vale é nas tragédias de Mariana e Brumadinho. Lá, os gestores também tinham os dados que apontavam a possibilidade de um acidente gigantesco e... calaram.

A culpa da China parece ainda mais clara, para alguns, por ela ter um regime comunista, certo? Infelizmente (ou felizmente), a China não tem uma economia comunista. A China tem uma ditadura do Partido Comunista, mas sua economia é de mercado. Os meios de produção não são do Estado, mas de empresários. Empresários estes que vendem para todo o mundo. Quem nunca caiu na tentação de comprar aquele produto "muito mais barato", mesmo demorando três meses para chegar? Quantas empresas não optaram por comprar da China como estratégia de competição? Quantas empresas nacionais não faliram para que outras lucrassem mais ao comprar da China?


Onde moro, a indústria têxtil praticamente desapareceu por conta da competição chinesa. Empresários que hoje reclamam da China "comunista" foram os primeiros a correr no sentido de diminuir seus custos. Afinal, é economia de mercado e o menor custo vence.

Essa era a estratégia da China: ser o celeiro industrial do mundo. E conseguiu, claro. Basta olhar os números de crescimento e ver que produtos chineses estão espalhados em todos os continentes. Uma produção baseada em grande quantidade e condições desumanas. Mas, quem disse que chinês é gente? Que se dane se existiam semi-escravos do outro lado, eu só quero comprar mais barato. O mesmo pensamento da Robalto, lembram? Comprar relógios e celulares bem baratinhos, afinal eram roubados. Mas quem se importa com isso?

Acho icônico a China ser o ponto focal da pandemia. O país mais poluído do mundo e um dos que mais explora seus cidadãos, com altos índices de suicídio de trabalhadores que, simplesmente, "não aguentam mais". Seria irônico se não fosse trágico.

E agora ouvimos vozes dissonantes quanto ao caminho a seguir após esse período. Muitos preocupados com a economia, outros com as vidas humanas. E isso ocorre em toda grande crise. Toda grande crise provoca um repensar sobre como estamos vivendo. Ouvi um grande empresário discursando sobre como uma crise econômica pode matar mais do que a pandemia e que devemos continuar fazendo a roda girar. Perdas são normais! Oramos por suas almas e seguimos empurrando a roda. Será que nascemos somente para isso mesmo?

Não sei se essa crise vai causar qualquer mudança. Às vezes, duvido! Ainda vejo muito distante o dia em que pensaremos em uma solução econômica para que a vida prevaleça. Hoje, infelizmente, pensamos em um modelo de "vida" que permita a economia continuar girando e que uma minoria continue vivendo como deuses.

Mas, afinal de contas, foi por isso que comecei o Empatizar. Para ampliar nossa capacidade de enxergar coisas em comum com pessoas que hoje consideramos estranhas, diferentes, inferiores. Independente de quanto tempo ainda demore, não há caminho enquanto enxergarmos muros. Não há paz enquanto houver pessoas pensando que são melhores. E não haverá equilíbrio e saúde enquanto não deixarmos de ver o planeta Terra como um escravo destinado a gerar riqueza para essa minoria.

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